Diversas figuras nacionais, entre músicos e artistas plásticos, juntaram-se na 1a Edição do Festival Moçambicano da Trança, na Escola de Comunicação e Artes (ECA), para exaltar a trança tipicamente moçambicana, num contexto em que Moçambique e África precisam resgatar a identidade cada vez mais sufocada pelas culturas ocidentais.
Unânimes, as intervenientes consideram que as mulheres moçambicanas e africanas, de um modo geral, precisam de reconectarem-se com as suas raízes e a trança representa o símbolo profundo dessa herança cultural.
Garantem que, cada traço e estilo desenhado nos cabelos, revela história, criatividade e pertença, fala das origens, honra a ancestralidade e reafirma o poder da mulher negra e africana.
Um dos rostos mais notáveis dentre as intervenções foi Elvira Viegas, conceituada compositora e cantora moçambicana que, no auge dos seus 70 anos, dos quais 52 dedicados à música e 47 à função pública, revelou nunca ter recorrido a nenhum tipo de cabelo importado para realçar a sua beleza. “Eu sempre fui trabalhar com as minhas tranças e via muitas colegas que “desfrizavam” o cabelo, naquele tempo era com pente bem quente, não havia produtos e, mais tarde, veio a avalanche das mechas.”
É com muita tristeza que Elvira Viegas assiste a excessiva importação de perucas para adicionar beleza, mas garante existirem mãos habilidosas, capazes de fazer tranças que realçam a beleza da mulher moçambicana.
A artista plástica Nefer, que recorre à pintura e poesia para se expressar, revelou a sua profunda paixão pelos cabelos crespos que considera uma extensão da sua arte e a forma que encontrou de expressar a sua identidade. “Comecei a gostar dos cabelos crespos quando pesquisei sobre a cultura africana, interagi com os mais velhos e ganhei gosto pela técnica de entrelaçar laços de cabelos, percebi que transcendia a estética, é a nossa ancestralidade”, destacou.
E foi durante as pesquisas que a artista descobriu que o cabelo era usado em várias tribos africanas para comunicar a sua cultura, a faixa etária ou a religião.
Na abertura do evento, a Directora da ECA, Prof.ª Doutora Ezra Nhampoca, referiu que a trança africana representa o símbolo do poder, da realeza, da moçambicanidade e africanidade, justificando, por isso que, a Universidade, não pode viver de costas à comunidade, pois a trança africana é comunidade, é ciência e um arquivo vivo.
Explicou que, durante séculos, tentaram reduzir o cabelo africano à mera estética. “Mas nós sabemos que a cada risco e cada nó carrega mapas, luto, festas, linhagens e muito mais, mas a ECA reconhece que a trança também é texto, é cultura, é arte, é comunicação e informação”, rematou.

