Com uma formação sólida em Oceanografia e uma pós-graduação em Física Educacional, Domingas Cangela, alumni da Universidade Eduardo Mondlane, é um exemplo de resiliência, disciplina e compromisso com o país. A sua trajectória académica, marcada pelo rigor científico, ganhou novos contornos ao transitar da academia para as Forças de Defesa e Segurança, onde, actualmente, exerce funções com a patente de Primeira-Tenente.
No âmbito das celebrações do mês da mulher, Domingas Cangela regressou à UEM como oradora convidada, partilhando com estudantes, docentes e investigadores o seu percurso singular e as interligações entre ciência e defesa nacional.
Durante a sua intervenção, destacou o papel estratégico da Física no contexto militar, desmistificando a ideia de que esta área se limita ao ensino. Entre as aplicações referidas, salientou a navegação marítima – através do estudo de ondas, correntes e marés –, o sensoriamento remoto, os sistemas inteligentes, bem como a monitorização ambiental e meteorológica. “O conhecimento científico é uma ferramenta fundamental ao serviço da pátria, abrangendo desde a segurança militar até à soberania digital”, afirmou, sublinhando a importância da ciência na tomada de decisões estratégicas.
A sua integração nas Forças de Defesa e Segurança, no entanto, não foi isenta de desafios. Proveniente de um ambiente académico mais aberto e crítico, Cangela teve de se adaptar a uma estrutura fortemente hierarquizada e disciplinada. Recordou que, durante a sua formação militar, num universo de cerca de 850 recrutas, apenas 23 eram mulheres, num contexto marcado por condições exigentes. “Não tínhamos instalações sanitárias no campo; como mulher, tinha de saber se virar”, relatou.
Acrescentou que as longas permanências no terreno implicavam a construção de abrigos improvisados e o cumprimento rigoroso de normas de segurança, onde a responsabilidade individual era levada ao limite. “Ficávamos uma semana no meio do nada. Tínhamos de fazer trincheiras, escavação com protecção de capim e arbustos para dormir, onde tinha de colocar a arma por baixo e dormir de barriga. Se a arma desaparecesse, seria um caso muito sério”, relatou.
Apesar das dificuldades, destacou que a experiência contribuiu para o fortalecimento do seu carácter e para uma nova forma de encarar o conhecimento. Segundo explicou, o ambiente militar exige a conjugação entre pensamento científico e disciplina institucional, numa lógica de complementaridade.
A palestra, subordinada ao tema “Da ciência à defesa da pátria: a trajectória de uma mulher cientista militar”, foi organizada pela Faculdade de Ciências da UEM e constituiu um espaço de reflexão sobre o papel da mulher na ciência e na defesa, inspirando novas gerações a explorar caminhos profissionais menos convencionais, mas de elevado impacto para o desenvolvimento do país.
